sexta-feira, 18 de novembro de 2011

O bolo não era assim tão grande


Poucas semanas atrás, quando a ONU divulgou seu mais recente Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), o ex-presidente Lula, mesmo já acometido do tumor na garganta que o forçou ao repouso e a um pouco menos do uso da voz, estrilou. Segundo informações de Brasília, Lula telefonou para o ministro e amigo Gilberto Carvalho e exigiu um protesto oficial do governo brasileiro.

Incomodava Lula o fato de não aparecer, no exercício de pesquisa comparativa da Unctad, o extraordinário avanço social experimentado pelo Brasil, especialmente em seu governo, quando, pelas estatísticas locais, 40 millhões de brasileiros saíram da linha da pobreza e da miséria.

Para a ONU, de um levantamento para outro, o IDH brasileiro ficou praticamente no mesmo lugar, ganhando apenas uma posição – passou da 85ª para a 84ª.

Havia, porém, na pesquisa, um dado mais deprimente para o País, que mereceu menos comentários e menores iras oficiais. As Nações Unidas, aplicando pela segunda vez nesse trabalho um outro critério de avaliação – além do crescimento dos índices que medem o avanço social mediu as desigualdades existentes entre a população – constatou que por essa métrica o Brasil perdeu simplesmente 13 posições em relação à medida anterior.


Em resumo – e foi isso que incomodou Lula e o governo – embora o Brasil (isso é inegável) tenha evoluído no seu processo de inclusão social, essa evolução esteve na mesma medida do que a ocorrida em outras nações (daí ter patinado na mesma posição) e ainda acentuou as desigualdades de renda.

Mais explicitamente ainda: a vida melhorou para todos, mas melhorou mais para os que já estavam em melhor posição; e nós continuamos sendo um dos países mais desiguais do mundo.

É uma realidade dolorosa que, gostem ou não as fontes oficiais, outros dados – divulgados ontem pelo IBGE sobre o Censo de 2010 – vieram comprovar de modo insofismável. Os 10% dos brasileiros mais ricos, registrou a sondagem, têm renda média mensal 39 vezes (repetindo, trinta e nove vezes) maior do que os 10% mais pobres dos cidadãos residentes nestas terras pátrias. Os 10% mais pobres ganhavam apenas 1,1% do total de rendimentos, contra 44,5% do total dos mais ricos.

O retrato dessa iniquidade fica muito vivo em outros dados do Censo de 2010, um exaustivo levantamento na vida econômica e social do País. Constatou-se que pelo menos metade dos 190 milhões brasileiros vivia então com rendimento per capita de R$ 375, valor menor do que os R$ 510 do salário mínimo da época. E 25% da população tinha renda mensal nominal de até R$ 188. Os da zona urbana (160 milhões) recebiam em média R$ 415; os da zona rural, R$ 170.

Difícil imaginar um país nessas condições com alto Índice de Desenvolvimento Humano, como o ex-presidente desejava que o Brasil estivesse classificado após seus oito anos de governo, de investimentos pesados em políticas sociais. O caso brasileiro é a comprovação de um fato corriqueiro: não basta apenas políticas distributivas, muitas entre nós essencialmente paternalistas, para garantir bem estar e boa qualidade de vida para a totalidade da população.

O grande desafio do governo Dilma é tanto fazer o bolo crescer (apud Delfim Netto em seus tempos de ministro) quanto distribuí-lo. Politicamente, a desigualdade de renda traz mais desassossego do que a pobreza em si.

Fonte: Diário do Comércio - José Márcio Mendonça é jornalista e analista político

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